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Aletria Editora revela força essencial da escuta

Fotografia: Izabela Dias

Aletria Editora mostra, no FliMinas, como a literatura infantil e juvenil pode nascer da escuta, formar leitores e transformar a relação entre palavra, infância e educação.

A presença da editora mineira no Festival Literário Internacional de Minas Gerais ajuda a contar uma história que começa antes do livro impresso. Ela passa pela oralidade, pela formação de contadores de histórias, pela mediação de leitura e pelo encontro entre crianças, professores, famílias e imaginação.

Aletria Editora e a literatura que nasce da escuta

A trajetória da Aletria Editora chama atenção porque não começa apenas no catálogo. Antes da publicação de livros, veio a formação de pessoas preparadas para contar histórias, mediar leituras e aproximar crianças da palavra.

Nesse sentido, a editora nasce de uma prática anterior ao mercado editorial. Sua origem está ligada ao Instituto Cultural Aletria, fundado por Rosana Mont’Alverne em 2005, com foco em projetos culturais voltados à literatura oral e escrita.

Dentro dessa estrutura, a Aletria reúne uma editora especializada em literatura infantil e juvenil, uma escola de formação de contadores de histórias e mediadores de leitura, além de uma produtora cultural dedicada a espetáculos narrativos e eventos literários.

Por isso, sua presença no FliMinas não representa apenas a participação de uma casa editorial em uma feira. Ela leva ao festival uma discussão mais ampla sobre escuta, infância, formação leitora e circulação da literatura como experiência coletiva.

O livro como continuidade da oralidade

Na entrevista realizada durante o FliMinas, Vânia Diniz relembrou que a editora começou a se estruturar a partir dos cursos de formação em contação de histórias. Primeiro, havia o trabalho de preparar professores e mediadores para narrar, ouvir e circular histórias. Depois, a publicação de livros passou a fazer parte desse ecossistema.

Essa origem dá à editora um lugar particular dentro da literatura infantil e juvenil. O livro não aparece apenas como produto final, mas como continuidade de uma prática que envolve voz, corpo, presença, escuta e vínculo.

Na prática, a história contada chega à criança antes mesmo da leitura silenciosa. Ela pode surgir na roda, na sala de aula, na biblioteca, no colo de um adulto ou em um encontro cultural. Depois, quando se transforma em livro, carrega essa memória de oralidade.

Dessa forma, a Aletria Editora reforça uma ideia importante para a formação de leitores: a criança não se aproxima da literatura apenas pela alfabetização formal. Muitas vezes, ela chega à palavra pela escuta, pelo afeto e pela experiência compartilhada de imaginar junto.

Literatura infantil não é conteúdo menor

A literatura infantil e juvenil ainda enfrenta, em muitos contextos, a visão equivocada de que seria uma produção mais simples ou menos relevante. No entanto, obras voltadas à infância podem reunir camadas profundas de linguagem, imagem, emoção e formação simbólica.

Nesse campo, a Aletria trabalha com histórias diversas, autores mineiros e também autores de fora do Brasil. Segundo a entrevista, o catálogo reúne obras voltadas a temas como autoestima, valorização, meio ambiente, respeito, ajuda ao próximo, querer bem e pensamentos positivos.

Esses temas não devem ser lidos como moral pronta. Quando a literatura infantil é bem construída, ela oferece às crianças uma forma sensível de elaborar questões sobre convivência, identidade, cuidado, diferença, medo, pertencimento e imaginação.

Ao mesmo tempo, esses livros também servem a famílias, educadores e mediadores. Uma boa obra infantil pode abrir conversas difíceis com delicadeza, criar repertório emocional e ajudar adultos a encontrar linguagem para temas que fazem parte da vida cotidiana das crianças.

FliMinas reforça a formação de leitores

O FliMinas oferece um ambiente estratégico para essa discussão porque se propõe a posicionar Belo Horizonte como território de encontro literário. O festival reúne autores, educadores, leitores, editoras e profissionais do livro em uma programação voltada à diversidade cultural e à formação cidadã.

Nesse cenário, a presença da Aletria Editora dialoga diretamente com a missão do evento. Em um festival dedicado ao livro, a editora lembra que a literatura também começa antes da página. Ela nasce na voz, na escuta, na roda de histórias e no gesto de mediação.

Além disso, a participação de uma editora com trajetória ligada à infância amplia o alcance da programação. O debate literário não fica restrito ao leitor adulto, ao autor consagrado ou ao lançamento editorial. Ele se volta também à base da formação leitora.

Por isso, a pauta tem relevância pública. Formar leitores desde a infância não é apenas uma responsabilidade escolar. É um processo cultural que envolve famílias, bibliotecas, professores, artistas, projetos sociais, políticas públicas e iniciativas editoriais capazes de criar pontes com a criança.

Contação de histórias como prática cultural

A relação da Aletria com a contação de histórias também ajuda a entender sua importância em Minas Gerais. A trajetória do instituto inclui projetos de longa duração, como o Conto Sete em Ponto, criado em 1998 por Rosana Mont’Alverne e reconhecido pela instituição como o projeto mensal de contação de histórias mais antigo do estado.

Outro exemplo é a Feira de Histórias, realizada na praça Tom Jobim, em Belo Horizonte, entre 2007 e 2013. Com espetáculos gratuitos de contação de histórias, o projeto contribuiu para ocupar o espaço urbano, aproximar o público da literatura oral e movimentar a presença de crianças e famílias na cidade.

Essas iniciativas mostram que a literatura pode sair da estante e ocupar o espaço público. Quando a história é contada em uma praça, uma escola, uma biblioteca ou um evento cultural, ela cria uma experiência coletiva de escuta.

Nesse ponto, a contação de histórias também funciona como prática de democratização cultural. Ela não exige, de início, que a criança domine a leitura. Ela convida o público a ouvir, imaginar, participar e reconhecer a palavra como lugar de encontro.

Mediadores multiplicam o alcance dos livros

A Escola de Formação de Contadores de Histórias e Mediadores de Leitura é outro eixo central da atuação da Aletria. De acordo com informações institucionais, desde sua fundação, a escola formou mais de 500 contadores de histórias.

Esse dado ajuda a dimensionar o trabalho. A editora não apenas publica livros para crianças e jovens. Ela também forma pessoas que levam narrativas para escolas, bibliotecas, projetos sociais, eventos culturais e comunidades leitoras.

Na prática, formar leitores também exige formar mediadores. O livro pode estar disponível, mas alguém precisa criar o primeiro encontro, sugerir caminhos, apresentar histórias, ouvir reações e ajudar a criança a construir uma relação própria com a leitura.

Por outro lado, o mediador não substitui a liberdade do leitor. Ele cria condições para que a leitura aconteça de forma mais viva. Quando professores, bibliotecários e contadores de histórias têm repertório, a literatura ganha mais chances de se transformar em hábito, memória e descoberta.

Belo Horizonte como território da palavra

A localização simbólica da Aletria em Belo Horizonte também fortalece a pauta. Ligada ao bairro Floresta, região tradicional da capital mineira, a editora construiu sua trajetória a partir de uma atuação cultural conectada à cidade.

Esse vínculo importa porque Minas Gerais costuma ser lembrada por sua força literária, mas muitas vezes a literatura infantil e juvenil não recebe o mesmo destaque dado a autores adultos ou obras consagradas. A presença da editora no FliMinas ajuda a ampliar essa percepção.

Nesse sentido, Belo Horizonte aparece não apenas como cenário, mas como território de produção, formação e circulação da palavra. A cidade abriga projetos que atuam na base da cadeia literária, especialmente na formação de leitores e na valorização da infância.

Ao mesmo tempo, o FliMinas amplia essa rede ao reunir diferentes agentes da cultura em um mesmo espaço. Editores, autores, professores, leitores e mediadores se encontram em torno de uma pergunta essencial: como fazer a literatura chegar a mais pessoas e permanecer na vida delas?

A infância no centro da experiência literária

A presença da Aletria Editora no FliMinas reforça a importância de tratar a infância como parte central da experiência literária. Crianças não são apenas futuros leitores. Elas já são sujeitos de linguagem, imaginação, escuta e interpretação do mundo.

Quando uma editora se dedica à literatura infantil e juvenil com atenção à oralidade, à mediação e à formação, ela participa de uma construção cultural que ultrapassa a publicação. Ela ajuda a criar vínculos entre gerações, amplia repertórios e fortalece espaços de convivência.

Além disso, a literatura voltada à infância pode atuar como uma forma de cuidado. Histórias sobre autoestima, respeito, meio ambiente, diferença e pertencimento ajudam crianças a nomear sentimentos, reconhecer conflitos e imaginar outras formas de viver em comunidade.

No fim, a passagem da Aletria pelo festival mostra que formar leitores não começa apenas com a entrega de um livro. Começa na escuta, na voz, na presença de quem conta e na confiança de que a palavra pode abrir caminhos desde cedo.

Visite o site Editora Aletria. A cobertura continua nos próximos textos da coluna no Nation Pop.

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