FliMinas mostrou que Belo Horizonte tem força para receber um festival literário de grande alcance, mas também revelou que uma boa proposta cultural precisa de divulgação, equilíbrio de públicos e retorno real para quem expõe.
Realizado entre os dias 7 e 13 de junho, o Festival Literário Internacional de Minas Gerais reuniu editoras, livrarias, autores, escolas, leitores e projetos culturais. A experiência, no entanto, deixou uma leitura dupla: havia potência no conteúdo, mas ainda faltou estrutura proporcional à ambição do evento.

FliMinas teve potência cultural, mas precisa amadurecer
O FliMinas acertou ao reunir uma programação diversa em torno da literatura, da formação de leitores e da circulação do livro. Em poucos dias, o festival colocou no mesmo espaço editoras tradicionais, livrarias itinerantes, autores independentes, quadrinistas, selos contemporâneos, projetos de oralidade, literatura infantil, iniciativas internacionais e ações de formação cultural.
Esse conjunto importa porque Belo Horizonte precisa de eventos literários capazes de ocupar a cidade com regularidade, diversidade e interesse público. A capital mineira tem tradição cultural, público leitor, escolas, universidades, autores e profissionais do livro. Portanto, um festival desse porte não surge em terreno vazio.
Ao mesmo tempo, por se tratar de uma primeira edição, parte dos ajustes faz parte do processo natural de amadurecimento de um evento que ainda está construindo sua relação com público, expositores, imprensa e mercado. A crítica, nesse caso, não diminui a relevância do festival. Pelo contrário, parte justamente do reconhecimento de que ele tem potencial para crescer.
Nesse sentido, a pergunta principal não é se Belo Horizonte precisa de uma feira literária. Precisa. A questão é como transformar uma proposta forte em uma experiência mais organizada, mais visível e mais equilibrada para públicos, imprensa e expositores.
O público escolar é essencial, mas precisa de equilíbrio
A presença de excursões escolares foi um dos pontos mais visíveis do evento. Esse movimento deve ser valorizado, especialmente em um país onde o incentivo à leitura precisa começar cedo e onde muitas crianças só acessam determinados espaços culturais por meio da escola.
Crianças e adolescentes devem circular por feiras literárias, conhecer livros, conversar com expositores, observar capas, descobrir autores e entender que a leitura não precisa ficar restrita à sala de aula. Essa experiência pode criar memórias importantes na formação leitora.
Contudo, o problema observado não estava na presença dos estudantes, mas na falta de equilíbrio entre os perfis de público. Em determinados horários, a concentração de grupos escolares dificultou a circulação, o atendimento em estandes, a escolha tranquila de livros e a realização de entrevistas.
Para visitantes adultos, a sensação podia ser de pouco acolhimento. Para imprensa e produtores de conteúdo, o fluxo intenso sem uma divisão mais precisa tornava difícil gravar vídeos, ouvir expositores e desenvolver uma cobertura com a calma que o próprio festival merecia.
Adultos, compradores e profissionais também fazem a feira acontecer
Um festival literário não pode ser pensado apenas como uma atividade escolar ampliada. A escola é parte central da formação leitora, mas a feira também precisa receber bem o visitante adulto, o jovem leitor, o comprador, o educador, o empresário, a imprensa e os profissionais do setor.
Esse equilíbrio é importante porque cada público cumpre uma função diferente dentro do ecossistema do livro. O estudante cria vínculo inicial com a leitura. O professor observa possibilidades pedagógicas. O leitor adulto compra, indica e retorna. O profissional faz contatos. A imprensa amplia a visibilidade.
Na prática, quando um evento concentra demais sua dinâmica em excursões escolares, corre o risco de reduzir a experiência de outros públicos. O visitante que deseja escolher livros com atenção precisa de tempo, espaço e atendimento. O expositor também precisa conseguir conversar com quem tem intenção real de compra.
Por isso, futuras edições poderiam pensar em horários, dias ou áreas com fluxos mais organizados. Escolas podem ter presença forte sem ocupar todo o ritmo da feira. Ao mesmo tempo, o público geral precisa sentir que o evento também foi planejado para ele.

O desafio também é estrutural em Belo Horizonte
A experiência do FliMinas também toca em um desafio mais amplo dos eventos realizados em Belo Horizonte. Em estruturas grandes, como o ExpoMinas, a presença de público nem sempre se converte em retorno proporcional para quem expõe, especialmente quando não há uma estratégia clara de comunicação, permanência e qualificação de visitantes.
Esse ponto precisa ser tratado com cuidado porque não se limita a uma crítica isolada ao festival. Muitos eventos culturais e comerciais da capital conseguem gerar movimentação, mas ainda enfrentam dificuldade para transformar fluxo em venda, relacionamento, contatos úteis e oportunidades concretas para expositores.
Para quem participa com estande, o custo costuma ser alto. Há transporte de material, equipe, alimentação, deslocamento, montagem, tempo de trabalho e, em alguns casos, hospedagem. Por isso, uma feira não pode ser avaliada apenas pela quantidade de pessoas circulando no espaço.
Na prática, o desafio é fazer com que o público certo encontre os expositores certos. Isso exige divulgação segmentada, programação bem comunicada, áreas de permanência, sinalização eficiente, atendimento à imprensa e uma leitura mais estratégica sobre quem visita, quem compra, quem indica e quem pode gerar desdobramentos depois do evento.
Divulgação limitada reduziu o alcance da proposta
A divulgação foi um dos pontos mais sensíveis da experiência. Para o tamanho da proposta, o evento pareceu ter uma comunicação pública abaixo do necessário, especialmente considerando a diversidade de atrações, expositores, autores, editoras, livrarias e experiências presentes no espaço.
Esse problema não afeta apenas o número de visitantes. Ele impacta diretamente a qualidade do público alcançado. Um festival literário precisa conversar com leitores, escolas, famílias, professores, universidades, imprensa, influenciadores literários, profissionais do mercado editorial e compradores institucionais.
Quando a divulgação não chega com força a esses públicos, a feira perde parte de seu potencial. Muitas pessoas que poderiam se interessar pela programação simplesmente não ficam sabendo do que está acontecendo. Outras descobrem tarde demais, sem tempo de se organizar.
No caso do FliMinas, havia experiências com apelo popular e cultural que mereciam mais comunicação. A presença do Instituto do Galo, por exemplo, poderia ter atraído torcedores, famílias e público esportivo para além do circuito literário tradicional.
Boas atrações precisam ser melhor comunicadas
A presença do Instituto do Galo no evento mostrava uma oportunidade clara de diálogo com Belo Horizonte. Em uma cidade onde o futebol faz parte da vida cultural, itens ligados ao Atlético Mineiro, taça em exposição, camisas, peças autografadas e produtos especiais poderiam ter ampliado o alcance da feira.
No entanto, a ação parecia pouco conhecida por parte do público. Esse caso revela um problema maior: havia boas experiências dentro do evento, mas nem todas pareciam ter recebido divulgação proporcional ao seu potencial.
O mesmo vale para iniciativas simples e comunicáveis, como o carrinho de pipoca com livro surpresa. A ideia tinha apelo afetivo, popular e visual. Em uma estratégia de comunicação mais forte, poderia render vídeos, fotos, chamadas, curiosidade e circulação espontânea nas redes sociais.
Em eventos culturais, pequenas ações podem gerar grande engajamento quando são bem contadas. Por isso, não basta ter boas atrações dentro da feira. É preciso apresentá-las antes, durante e depois, com linguagem clara, imagens fortes e direcionamento para públicos diferentes.
Expositores precisam de retorno, não apenas presença
Participar de uma feira literária exige investimento. Muitos expositores lidam com deslocamento, hospedagem, transporte de livros, montagem de estande, alimentação, equipe, tempo de trabalho e planejamento prévio. Em alguns casos, há participantes vindos de outros estados ou até de outros países.
Por isso, o retorno não pode ser tratado como detalhe. Uma feira precisa oferecer possibilidade real de vendas, contatos institucionais, visibilidade, parcerias, relacionamento com escolas, aproximação com compradores e cobertura de imprensa.
Esse ponto é especialmente sensível em Belo Horizonte, onde muitos eventos de grande porte conseguem gerar circulação, mas nem sempre entregam ao expositor uma relação equilibrada entre custo, público qualificado e possibilidade de retorno. A movimentação é importante, mas ela precisa se converter em permanência, conversa, compra ou oportunidade futura.
Nesse ponto, o FliMinas mostrou uma questão que merece atenção. A presença escolar movimenta o espaço e cumpre papel formativo, mas nem sempre gera retorno comercial direto. Já o público adulto, profissional e comprador pode produzir desdobramentos mais concretos para editoras, livrarias, autores independentes e distribuidores.
Faltou uma estratégia mais clara de público B2B
A ausência de uma estratégia B2B mais visível apareceu como um dos desafios estruturais do festival. Um evento desse porte poderia explorar melhor a presença de escolas particulares, bibliotecas, secretarias, livrarias, compradores institucionais, influenciadores literários, produtores culturais e empresários.
Esse público não precisa transformar a feira em evento corporativo. Pelo contrário, sua presença pode fortalecer a cadeia do livro. Um comprador institucional pode gerar pedido futuro. Uma escola pode adotar títulos. Uma biblioteca pode ampliar acervo. Um produtor pode criar novas agendas.
Além disso, a imprensa poderia ter recebido uma estratégia mais robusta. Jornalistas, colunistas e criadores de conteúdo não estão em um festival apenas para registrar presença. Eles ajudam a contar histórias, divulgar expositores, informar o público e construir memória pública sobre o evento.
Sem uma relação mais organizada com imprensa e agentes de mercado, muitas histórias ficam restritas ao espaço físico e desaparecem após o encerramento. Para um festival que pretende se consolidar como internacional, isso representa perda de alcance e de legado.
Espaço físico, permanência e experiência do visitante
A ocupação do espaço também merece análise. O pavimento inferior concentrou boa parte da movimentação, enquanto outras áreas pareceram menos ativadas ou com menor circulação. Em um evento literário, a distribuição dos ambientes precisa favorecer fluxo, permanência e descoberta.
A presença de autores independentes em mesas com rotatividade foi positiva, mas poderia ter recebido mais visibilidade e sinalização. Quando a feira reúne grandes expositores e pequenos autores, a organização precisa criar caminhos para que o público encontre ambos.
A estrutura de alimentação também indicou um ponto de atenção. Cafeterias e espaços de comida pareciam ter baixa movimentação em determinados momentos, o que sugere que a experiência de permanência talvez não tenha sido plenamente estimulada.
Um festival literário não depende apenas dos estandes. Ele precisa convidar o visitante a circular, sentar, comer, voltar aos livros, assistir a atividades, encontrar pessoas e permanecer no espaço por mais tempo. Essa permanência amplia vendas, convivência e experiência cultural.

Potência cultural precisa virar planejamento
O FliMinas reuniu elementos importantes para uma primeira experiência forte. Havia diversidade de editoras, presença de livrarias, literatura infantil, quadrinhos, autores independentes, projetos internacionais, iniciativas de formação e ações capazes de impactar leitores de diferentes idades.
Ainda assim, potência cultural não se sustenta apenas pela intenção. Para crescer, o festival precisa melhorar divulgação, organizar fluxos de público, equilibrar escolas e visitantes adultos, fortalecer ações B2B, valorizar a imprensa e comunicar atrações específicas com antecedência.
A crítica, nesse caso, deve ser lida como contribuição. Eventos culturais relevantes precisam de planejamento proporcional à sua ambição. Quando uma feira reúne tantos agentes do livro, ela assume responsabilidade com o público e também com quem investiu para estar ali.
No fim, o FliMinas mostrou que Belo Horizonte tem público, território e repertório para receber um festival literário de grande alcance. Agora, o desafio está em transformar uma boa proposta em uma experiência mais organizada, mais comunicada e mais consistente para leitores, expositores e mercado.
O tema segue em acompanhamento na coluna do Nation Pop.
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