Se a música dos anos 90 fosse uma escola, o Deftones seria aquele aluno misterioso do fundo da sala: vestia as mesmas roupas da turma do “Nu-Metal”, andava com eles no recreio, mas, secretamente, ouvia The Smiths e Sade nos fones de ouvido. Trinta e cinco anos depois, enquanto a maioria de seus colegas de classe virou nota de rodapé ou paródia de si mesmo, o Deftones se graduou com honras, tornando-se uma das bandas mais veneradas, influentes e — surpreendentemente — jovens de espírito do rock mundial.
Eles não são apenas uma banda; são uma textura, uma atmosfera. O som do Deftones é o ponto exato onde a violência do metal colide com a sensualidade do dream pop. É o som de um soco no estômago dado por alguém usando luvas de veludo.
Neste dossiê, dissecamos a anatomia da banda de Sacramento, exploramos seu renascimento viral com a Geração Z e preparamos você para o massacre sonoro que será o show no Lollapalooza Brasil 2026.
O paradoxo de Sacramento: O início de tudo
Formada em 1988 em Sacramento, Califórnia, a banda nasceu da amizade improvável entre três skatistas: Chino Moreno, Stephen Carpenter e Abe Cunningham. A geografia é importante aqui: Sacramento não tinha o glamour de Los Angeles ou a sujeira artística de Nova York. Era uma cidade operária, quente e entediante. O cenário perfeito para criar barulho.
No início, o Deftones foi inevitavelmente agrupado com o movimento Nu-Metal, ao lado de Korn e Limp Bizkit. O álbum de estreia, “Adrenaline” (1995), era cru, rápido e furioso. Faixas como “7 Words” e “Bored” capturavam a angústia adolescente suburbana com perfeição. Mas, ouvindo com atenção, já havia algo diferente ali. A voz de Chino não apenas gritava; ela sussurrava, gemia, flutuava.
A tensão criativa: O Metal vs. O Ethereal
O segredo da longevidade do Deftones reside na tensão criativa entre seus dois líderes. De um lado, temos o guitarrista Stephen Carpenter, um devoto do peso, do Meshuggah e das guitarras de 8 cordas que soam como placas tectônicas se movendo. Do outro, o vocalista Chino Moreno, um fã incurável de New Wave, Depeche Mode, The Cure e Shoegaze.
Essa guerra fria musical — Stephen querendo ser a banda mais pesada do mundo e Chino querendo ser a mais bonita — criou uma sonoridade que nenhum algoritmo poderia prever. Onde um traz o concreto, o outro planta flores.
A Trindade Sagrada: De ‘Around the Fur’ ao ‘White Pony’
Se “Adrenaline” foi o cartão de visitas, “Around the Fur” (1997) foi o aviso de despejo para os rótulos limitantes. O álbum trouxe “Be Quiet and Drive (Far Away)”, uma música que definiu o modelo “Deftones” de composição: paredes de distorção sustentando melodias vocais que pareciam vir de um sonho febril.
Mas a verdadeira revolução chegou em 2000, com “White Pony”. Este não é apenas o melhor álbum da banda; é um dos discos de rock mais importantes do século XXI. Com a adição oficial do DJ e tecladista Frank Delgado, a banda abraçou texturas eletrônicas e ambientes cinematográficos.
“Change (In the House of Flies)” tornou-se o hino gótico-metal definitivo, sensual e perturbador na mesma medida. “Passenger”, com a participação de Maynard James Keenan (Tool), elevou a banda ao status de arte. Com “White Pony”, o Deftones deixou a mesa das crianças do Nu-Metal e sentou-se com os adultos do Art Rock, como Radiohead e Pink Floyd.
Tragédia, Luto e Renascimento: A Era Chi Cheng
A história do Deftones é também marcada por uma tragédia devastadora. Em 2008, o baixista fundador Chi Cheng sofreu um grave acidente de carro que o deixou em coma semivigil até sua morte, em 2013.
O luto quase destruiu a banda. O álbum “Eros”, que estava sendo gravado na época, foi arquivado (e permanece inédito até hoje, o “Santo Graal” dos fãs). Para sobreviver, eles recrutaram o baixista Sergio Vega e canalizaram a dor em criatividade.
O resultado foi “Diamond Eyes” (2010), um álbum que soa como um milagre. Pesado, otimista e focado, ele provou que o Deftones ainda tinha muito a dizer. Faixas como “Rocket Skates” e “Sextape” mostraram que a banda conseguia ser brutal e belíssima no espaço de uma única música.
O Fenômeno TikTok e a “Geração Deftones”
Corte para a década de 2020. Enquanto muitas bandas de rock lutavam para encontrar relevância na era do streaming, algo bizarro aconteceu com o Deftones: eles viralizaram.
Jovens da Geração Z, muitos dos quais nem eram nascidos quando “White Pony” foi lançado, descobriram a banda através do TikTok. A estética “gótica e triste, mas sexy” da banda ressoou perfeitamente com a angústia moderna. Músicas como “Mascara” e “Cherry Waves” tornaram-se trilhas sonoras para milhões de vídeos.
De repente, o Deftones não era mais “música de tiozão do rock”. Eles eram cool. Eram moda. Eram a banda favorita da cantora pop do momento (sim, Olivia Rodrigo e Billie Eilish são fãs declaradas). Isso revitalizou a base de fãs e injetou uma nova energia nos shows ao vivo, agora repletos de jovens gritando cada palavra.
O Presente: ‘Private Music’ e a Maturidade Sonora
Chegamos a 2025/2026. O lançamento recente do álbum, estilizado em minúsculas como “private music”, marcou mais um pico criativo. Produzido novamente pelo mago Nick Raskulinecz (o mesmo de “Diamond Eyes”), o disco foi aclamado como o trabalho mais coeso da banda em uma década.
Em “private music”, a banda parece ter finalmente encontrado a paz em sua dualidade. As guitarras de Stephen estão mais graves do que nunca, roçando as frequências do infra-som, enquanto Chino entrega algumas de suas performances vocais mais vulneráveis.
O álbum prova que o Deftones não está interessado em viver de nostalgia. Eles continuam empurrando os limites do que a música pesada pode ser, incorporando elementos de synth-wave e pós-punk sem perder a agressividade que os define.
Deftones e Brasil: Uma Relação Carnal
O Brasil sempre teve um lugar especial no coração (e no fígado) do Deftones. Desde a lendária apresentação no primeiro Rock in Rio de 2001, onde enfrentaram uma plateia gigantesca com a ferocidade de novatos, até as passagens suadas por casas de show menores, a conexão é visceral.
O público brasileiro entende a intensidade emocional do Deftones como poucos. Aqui, “Digital Bath” não é apenas uma música; é uma oração coletiva. Chino Moreno, conhecido por se jogar na plateia (às vezes com consequências desastrosas para seus próprios ossos), encontra no Brasil o caos perfeito para sua performance física.
Lollapalooza Brasil 2026: O Que Esperar?
A confirmação do Deftones como um dos headliners da sexta-feira, 20 de março de 2026, no Lollapalooza Brasil, foi o presente definitivo para os fãs de rock alternativo.
Curiosamente, eles compartilham o dia com a estrela pop Sabrina Carpenter (sobre a qual falamos em nosso artigo anterior). Essa justaposição no lineup — a princesa do pop vintage e os reis do metal atmosférico — resume perfeitamente o espírito eclético do festival e a própria base de fãs cruzada que existe hoje.
O Elefante na Sala: Stephen Carpenter vem?
A grande incógnita para o show de 2026 envolve o guitarrista Stephen Carpenter. Nos últimos anos, Stephen optou por não participar de turnês internacionais, citando ansiedade de viagem e, em alguns momentos, suas controversas opiniões pessoais que geraram atritos logísticos.
Nas turnês recentes fora dos EUA, a banda tem contado com músicos de apoio competentes na segunda guitarra, enquanto Stephen permanece um membro ativo em estúdio e shows domésticos. Para o Lollapalooza Brasil 2026, a expectativa é imensa. Será que veremos a formação completa?
Mesmo se Stephen não vier, a máquina ao vivo do Deftones é imparável. Com Chino na guitarra base, Abe Cunningham destruindo a bateria com seu groove inimitável e Frank Delgado criando as atmosferas, o som permanece maciço.
O Setlist dos Sonhos
Para o Lolla 2026, espere um setlist que equilibre os clássicos obrigatórios com as pérolas do novo “private music”.
- As Garantidas: “My Own Summer (Shove It)”, “Change”, “Diamond Eyes”.
- As Favoritas do TikTok: “Cherry Waves”, “Sextape”.
- O Mosh Pit: “Headup”, “Engine No. 9”.
O Deftones desafia o tempo. Eles não soam datados porque nunca seguiram tendências; eles criaram o próprio universo.
- A Estética Visual: As capas de álbuns, o merchandising, os clipes — tudo no Deftones é curado com um olho artístico que transcende o gênero “metal”.
- Letras Atemporais: Chino escreve sobre sensações, não situações. Suas letras sobre desejo, água, morte e sonhos são abertas o suficiente para que qualquer pessoa, em qualquer época, se identifique.
- Influência Universal: De bandas de Shoegaze moderno (como Loathe e Deafheaven) a rappers (como Tyler, The Creator e The Weeknd), todos citam Deftones como referência. Eles são a “banda favorita da sua banda favorita”
O Deftones desafia o tempo. Eles não soam datados porque nunca seguiram tendências; eles criaram o próprio universo.
Guia de Discografia Essencial para Iniciantes
Se você vai ao Lollapalooza 2026 e quer fazer o dever de casa, aqui está o caminho das pedras:
- Para bater cabeça: Adrenaline (1995) e Around the Fur (1997).
- Para viajar: White Pony (2000) e Koi No Yokan (2012).
- Para chorar no banho: Saturday Night Wrist (2006).
- Para se sentir poderoso: Diamond Eyes (2010).
- Para entender o presente: Ohms (2020) e private music (2025).
Prepare-se para a catarse
O show do Deftones no Lollapalooza Brasil 2026 não será apenas uma apresentação musical; será um ritual de exorcismo coletivo. Em um mundo cada vez mais sintético, ver uma banda que sangra, sua e sente tanto no palco é um lembrete necessário do poder da música humana.
Seja você um fã das antigas que viu o estouro do Nu-Metal ou um jovem que descobriu a banda scrollando o TikTok, o Autódromo de Interlagos será o templo onde todas as tribos se encontrarão. Prepare os ouvidos para o peso e o coração para a melancolia. O Deftones está vindo.
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