Desigualdade de gênero na música: mulheres recebem apenas 10% dos direitos autorais distribuídos

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Escrito por

Gabriel Nascimento (@gabenaste)
Gabriel Nascimento (@gabenaste)https://gabenaste.com.br
Jornalista, editor-chefe do Nation POP, empreendedor, especialista em Marketing 360º, Branding Registro de Marcas & Creator Economy. Música é seu segundo oxigênio, não vive sem!
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A edição 2026 do estudo “Por Elas Que Fazem a Música”, lançado pela União Brasileira de Compositores (UBC), apresenta um retrato contundente da desigualdade de gênero na indústria musical. O levantamento revela que as mulheres ainda recebem apenas 10% do total distribuído de direitos autorais no país, um dado alarmante que expõe a estagnação na busca por equidade no setor. Além da disparidade financeira, o estudo também aponta a persistência da discriminação e do assédio, desafios que seguem limitando o avanço feminino na música.
 

Os números relativos ao ano de 2025 reforçam essa desigualdade estrutural. Entre os 100 maiores arrecadadores da UBC, apenas 11 são mulheres, evidenciando a baixa representatividade feminina no topo da cadeia de arrecadação. Em contrapartida, a melhor colocação feminina avançou do 21º para o 16º lugar, indicando que, embora a presença ainda seja pequena, as mulheres que chegam ao topo estão melhor posicionadas.
 

Ao analisar a distribuição de renda entre as mulheres por categoria, observa-se que as autoras se destacam, concentrando 73% do total recebido pelas mulheres na UBC. Em contrapartida, as versionistas e produtoras fonográficas registraram a menor participação, representando apenas 1% cada da arrecadação. Já as intérpretes corresponderam a 23% e as músicas executantes a 2%, demonstrando que, apesar de avanços em algumas frentes, a presença feminina ainda precisa ser fortalecida em diversas áreas do setor musical.
 

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Distribuição de renda entre as mulheres na música – fonte: UBC
 

Um dado que reafirma essa necessidade é o crescimento de 229% no número de mulheres associadas à UBC desde a primeira edição do relatório, em 2017, um salto expressivo que reflete o interesse e a busca por reconhecimento na indústria, mas que ainda não se traduz de maneira proporcional nos rendimentos obtidos.
 

A distribuição regional das associadas da UBC mostra que o Sudeste, Nordeste e Sul continuam concentrando a maior parte das mulheres na música, somando juntas 88% do total. O Sudeste segue na liderança, enquanto o Norte registra a menor participação. Atualmente, 60% das associadas estão no Sudeste, 17% no Nordeste, 11% no Sul, 8% no Centro-Oeste e apenas 3% no Norte. A desigualdade geográfica reforça a importância de políticas e iniciativas que promovam uma distribuição mais equilibrada e incentivem mulheres de todas as regiões a ingressarem e prosperarem no setor musical.

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Distribuição regional das mulheres na indústria da música – fonte: UBC
 

O último ano também foi marcado por um aumento expressivo no cadastro de obras e fonogramas com participação feminina. O número de fonogramas registrados por produtoras fonográficas cresceu 13%, enquanto o de obras cadastradas por autoras e versionistas teve um aumento de 12%, sinalizando um avanço na presença das mulheres não apenas como intérpretes, mas também nos bastidores da produção musical.
 

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Quanto às fontes de arrecadação, os segmentos de Rádio e Show se destacaram como os mais lucrativos para as mulheres, representando cada um 17% da arrecadação total feminina. Em seguida, vem o crescimento do streaming de música, com 11%, Já o Cinema ficou na outra ponta, com 0,5% da renda total das mulheres no setor.
 

65% das mulheres afirmam já ter sido alvo de assédio no mercado da música

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Dois terços das mulheres no mercado da música já foram vítimas de assédio – fonte: UBC
 

Para ampliar o retrato traçado pelos dados do relatório, a UBC realizou um levantamento digital com foco em assédio, discriminação e violência no mercado musical, com a participação de mais de 280 mulheres profissionais do setor.
 

As respostas, coletadas no primeiro trimestre de 2026, indicam a permanência de práticas misóginas e desigualdades que afetam diretamente a atuação e a segurança das mulheres: 65% relataram já ter vivido assédio no contexto profissional; com destaque para assédio sexual (74%), assédio verbal (63%) e assédio moral (56%); e 35% afirmaram ter enfrentado algum tipo de violência, sobretudo psicológica (72%), além de toque físico sem consentimento (58%) e violência verbal (38%).
 

Os relatos também evidenciam padrões de responsabilização e impactos na trajetória profissional. Para 96% das respondentes, homens foram os autores das situações vividas; 75% apontaram impacto emocional e metade (50%) disse ter se afastado de pessoas ou ambientes de trabalho. Ao mesmo tempo, 49% afirmaram não ter buscado apoio ou não ter compartilhado o ocorrido, sinalizando barreiras para denúncia e acolhimento.
 

No recorte de discriminação, 63% disseram ter sido ignoradas ou interrompidas em contextos profissionais, 59% receberam comentários que desqualificaram sua competência, 57% sentiram cobrança maior para provar capacidade e 52% tiveram créditos omitidos ou minimizados, com reuniões de negócio (45%), bastidores de shows (31%), passagem de som (27%) e processos de contratação e seleção de equipe (26%) como os ambientes mais associados a preconceitos e barreiras.
 

A pesquisa também destaca o impacto da maternidade: 60% das mulheres com filhos afirmam que a carreira foi afetada, principalmente por menos convites e oportunidades, menos viagens/turnês e comentários preconceituosos sobre dedicação à maternidade.
 

Entre as participantes, 45% se identificam como profissionais do mercado musical, 25% como compositoras, 22% como intérpretes e 8% como musicistas executantes; 37% atuam há 21 anos ou mais no setor. Em relação à renda, 55% têm a música como principal fonte de sustento, enquanto 29% não dependem da música como renda principal e 16% afirmam ter renda parcialmente vinculada à atividade musical.
 

Os relatos coletados pela pesquisa ilustram a gravidade da situação. Uma profissional, que preferiu manter o anonimato, contou:
 

“Um produtor de um grande festival do Nordeste, num comprimento passou a mão com vontade na minha cintura e subiu até o seio. Na hora fiquei sem reação. Meu companheiro viu a cena e ficou perplexo. Não me manifestei para não fechar uma porta, para que no momento oportuno, eu use a minha voz no palco.”
 

Já a letrista Iara Ferreira relatou:

“Um músico 30 anos mais velho que eu, que eu admirava e super celebrado no meio, me convidou para compormos juntos. Quando cheguei a sua casa, havia uma cena preparada para um encontro amoroso (vinho, flores…) e ele se ‘declarou’ dizendo que ele mesmo já tinha feito a letra que tinha me pedido pra fazer, e era dedicada a mim. Me senti completamente desrespeitada e humilhada como profissional. Passei um bom tempo duvidando de minha capacidade, pensando que os homens que se aproximavam de mim dizendo que gostavam de meu trabalho, na verdade o faziam com segundas intenções. Essa foi apenas uma de várias situações ao longo desses 15 anos trabalhando como letrista.”
 

Em busca do equilíbrio de gênero, entidade tem mais 57% de postos de liderança ocupados por mulheres
 

Apesar do cenário desafiador, a UBC tem se destacado como uma entidade comprometida com a equidade de gênero. Atualmente, 100% das filiais da entidade são gerenciadas por mulheres. Além disso, 59% da equipe é composta por mulheres, e elas ocupam 57% dos cargos de liderança. Em 2023, a organização deu um passo significativo ao eleger Paula Lima como sua primeira Diretora-Presidenta, reafirmando o compromisso com a valorização da liderança feminina e a busca por mudanças estruturais na indústria da música.
 

Paula Lima destaca a importância do estudo como um instrumento de transformação:
“O relatório Por Elas Que Fazem a Música 2026 revela que o crescimento da presença feminina na UBC é resultado de um processo contínuo de transformação e de um compromisso real com a equidade. O crescimento acumulado de 229% traduz não apenas a ampliação de oportunidades e realizações, mas representa para além de números, histórias, trajetórias e conquistas de mulheres que há anos lutam por espaço, reconhecimento e voz. É o reconhecimento do papel essencial das mulheres na construção da música brasileira. Fazer parte dessa caminhada e presidir a UBC neste momento histórico é, para mim, uma honra profunda e uma grande responsabilidade. Significa reafirmar o compromisso de fortalecer políticas de inclusão, valorizar o talento feminino e contribuir para a construção de uma indústria musical cada vez mais diversa, justa e verdadeiramente representativa”, afirma.
 

Para Fernanda Takai, diretora da UBC, o crescimento no número de associadas e a forte presença das autoras são sinais positivos. “Chegamos a mais um relatório sobre a presença feminina da UBC e temos a certeza de que há um caminho enorme a percorrer. Embora os números estejam se expandindo – autoras, versionistas, intérpretes, musicistas e produtoras ocupam apenas 17% da base total da associação – e constatamos recortes muito claros sobre concentração geográfica e também etária. Abrimos 2026 mirando um futuro que espelhe nossa cultura interna, onde as mulheres ocupam 59% no quadro geral de funcionários e maioria absoluta nos cargos de liderança. A indústria da música precisa ser mais representativa e não vamos perder esse foco”, sinaliza Takai.
 

Mila Ventura, gerente de comunicação e marketing e coordenadora do projeto, afirma: “A importância do Relatório Por Elas Que Fazem a Música, não só na nossa indústria, mas na sociedade como um todo, nos motiva a seguir acompanhando e fomentando a presença feminina na música. Ele transforma em números o que vivemos diariamente. Ao amplificar vozes e gerar um espaço seguro para o compartilhamento de questões de violência, de todos os tipos, e discriminação, multiplicamos a nossa força e também nos reconhecemos em sutilezas desconfortáveis, lugares em que, infelizmente, toda mulher já esteve ao menos uma vez na vida, e que precisam ser ditos e debatidos. A UBC segue na sua missão de valorizar, fortalecer e ampliar a equidade de gênero na indústria musical.”

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